Deficiências significativas de controle interno no Formulário de Referência: a divulgação que separa transparência de formalidade

Auditoria

Deficiências significativas de controle interno no Formulário de Referência: a divulgação que separa transparência de formalidade

12 de julho de 2026

Categoria

A orientação anual reforça a divulgação de deficiências significativas de controle interno apontadas pelo auditor no Formulário de Referência.

Resumo

  • A orientação anual da área técnica de supervisão de companhias abertas reforça adivulgação, no Formulário de Referência, das deficiências significativas de controle interno identificadas pelo auditor independente, com ênfase em clareza, detalhamento e descrição das medidas corretivas.

  • O campo exige três camadas: asdeficiências e recomendações constantes do relatório detalhadoque o auditor encaminha à companhia, oscomentários dos diretoressobre essas deficiências e asprovidências de correção— e é a segunda e a terceira camadas que costumam ficar vazias ou genéricas.

  • A responsabilidade pela avaliação de relevância e pela decisão de divulgar é daadministração, que precisa julgar a probabilidade e a magnitude de distorções nas demonstrações decorrentes das deficiências — não é o auditor quem "publica" a deficiência, é a companhia que responde por ela.

  • No fechamento intermediário e no encerramento do exercício, uma divulgação vaga hoje virainconsistência amanhã: se a deficiência persiste e reaparece, a ausência de detalhe e de plano de correção rastreável fragiliza a posição da companhia perante o mercado e o regulador.

Camada da divulgação

O que o campo pede

Erro comum

Boa prática

Deficiências apontadas

Deficiências e recomendações do relatório do auditor

Declarar "não há deficiências relevantes" sem base

Descrever a natureza da deficiência e o processo afetado

Comentários da administração

Avaliação dos diretores sobre as deficiências

Texto genérico que não avalia probabilidade nem magnitude

Julgamento explícito de relevância, com racional

Medidas corretivas

Providências adotadas e cronograma

"Estão sendo tomadas providências" sem prazo

Ação, responsável e prazo, com status de implementação

Continuidade entre exercícios

Evolução da deficiência ao longo do tempo

Reapresentar o mesmo texto ano após ano

Demonstrar resolução ou explicar a persistência

O que é uma deficiência significativa — e por que a palavra "significativa" carrega o peso

Nem toda observação do auditor é uma deficiência significativa. As normas de auditoria distinguem a simples deficiência de controle — quando um controle não previne, detecta ou corrige distorções em tempo hábil — da deficiência significativa, que é aquela que, no julgamento profissional do auditor, merece a atenção dos responsáveis pela governança. A diferença não é semântica: é a deficiência significativa que ativa a comunicação formal aos encarregados da governança e que alimenta o relatório detalhado encaminhado à companhia. E é esse relatório que o Formulário de Referência manda espelhar.

O ponto sensível é quem decide o que vira divulgação pública. O auditor comunica as deficiências à administração e à governança; a decisão sobre relevância e sobre a necessidade de comentar publicamente é da própria administração, que deve exercer julgamento sobre a probabilidade e a possível magnitude das distorções que podem surgir nas demonstrações em razão daquelas deficiências. Ou seja, o auditor não "divulga" a deficiência ao mercado — ele a reporta à companhia, e a companhia responde por como a trata no formulário. Essa arquitetura é deliberada: mantém a responsabilidade pela informação onde ela deve estar, na administração, e evita que o auditor se torne o porta-voz público de fragilidades que cabe à companhia endereçar.

As três camadas — e onde a divulgação costuma emagrecer

O campo do formulário tem uma estrutura em três camadas, e cada uma testa uma coisa diferente. A primeira camada — as deficiências e recomendações apontadas pelo auditor — costuma ser a mais bem preenchida, porque vem pronta do relatório. A segunda camada — os comentários dos diretores — é onde a divulgação começa a emagrecer: muitas companhias reproduzem um texto genérico que não avalia probabilidade nem magnitude, quando o que se pede é exatamente esse julgamento. A terceira camada — as medidas corretivas — é a que mais frequentemente vira retórica: "a companhia está adotando providências" sem ação nomeada, sem responsável, sem prazo.

Há ainda uma quarta dimensão, implícita, que a orientação anual sublinha ao pedir clareza: a continuidade entre exercícios. Uma deficiência que aparece num ano e reaparece no seguinte, com o mesmo texto genérico, comunica ao leitor atento que a correção não avançou — ou que a companhia não a acompanhou. A boa divulgação mostra a trajetória: a deficiência foi apontada, a administração a avaliou, um plano foi montado, e o exercício seguinte reporta o status. É essa trajetória que transforma o campo de um espaço de preenchimento em um instrumento de prestação de contas.

Por que isso importa mais no fechamento intermediário e no encerramento

O calendário de divulgação intensifica a exposição. As informações intermediárias e as demonstrações padronizadas passam pelo escrutínio do auditor, e é nesse ciclo que as deficiências de controle são identificadas, comunicadas e — quando significativas — precisam ser refletidas no formulário. Uma companhia que trata a divulgação como formalidade no meio do ano carrega o problema para o encerramento do exercício, quando a atenção do mercado é maior e a margem para uma divulgação apressada é menor.

Há um efeito de segunda ordem que costuma passar despercebido. Deficiências de controle interno não vivem isoladas: elas se conectam à confiabilidade das próprias demonstrações. Uma fragilidade relevante no ambiente de controle aumenta o risco de distorção material, o que o auditor considera no desenho de seus procedimentos e no dimensionamento da extensão dos testes. Quando a companhia subdimensiona a divulgação de uma deficiência que o auditor considera significativa, cria-se uma dissonância entre o que o mercado lê no formulário e o que o auditor efetivamente avaliou — e essa dissonância, se vier à tona, custa mais do que a divulgação honesta teria custado.

Momento do ciclo

O que acontece com os controles

Reflexo no Formulário de Referência

Fechamento intermediário

Auditor identifica e comunica deficiências

Oportunidade de divulgar cedo, com plano em curso

Encerramento do exercício

Deficiências consolidadas no relatório detalhado

Divulgação sob maior escrutínio do mercado

Exercício seguinte

Verificação da correção efetiva

Cobrança implícita de evolução — persistência pesa

Caso anonimizado: a deficiência que virou texto de rodapé

Uma companhia de porte médio, listada há poucos anos, recebeu do auditor um relatório detalhado apontando uma deficiência significativa no processo de fechamento contábil: conciliações relevantes eram feitas manualmente, sem segregação entre quem preparava e quem revisava, e sem trilha que permitisse reconstruir a sequência de ajustes. No Formulário de Referência daquele ano, o campo trouxe uma frase: a companhia informava que o auditor havia feito recomendações sobre controles internos e que estas estavam sendo avaliadas. Nada sobre a natureza da deficiência, nada sobre magnitude, nada sobre plano.

No exercício seguinte, a mesma deficiência reapareceu no relatório do auditor — a manualidade continuava. Só que agora o mercado tinha dois formulários com o mesmo texto vago, e uma pergunta óbvia: se estava sendo avaliada há um ano, por que persistia? A companhia foi obrigada a refazer a divulgação, desta vez descrevendo o processo afetado, o julgamento de relevância da administração e um cronograma de automação das conciliações com responsável e prazo. O custo não foi a correção do controle — que ela teria de fazer de qualquer modo. O custo foi a credibilidade perdida no intervalo, quando a divulgação enxuta sugeriu, a quem sabia ler, que a companhia não estava tratando o problema. A lição é simples: a divulgação detalhada no primeiro ano teria protegido a companhia; a divulgação genérica apenas adiou a conta.

Como a MERC pode ajudar

A MERC atua na interseção entre a identificação técnica das deficiências e a qualidade da divulgação que as reflete. No trabalho de auditoria e de asseguração, avaliamos o ambiente de controle interno com a profundidade que as normas exigem, comunicamos as deficiências significativas aos responsáveis pela governança de forma estruturada e apoiamos a administração a exercer o julgamento de relevância que o Formulário de Referência lhe atribui — sem assumir o papel que é dela, mas oferecendo o racional técnico que sustenta uma divulgação clara e defensável.

Para companhias em fase de estruturação de governança, ajudamos a montar o ciclo completo: mapeamento das deficiências, plano de correção com responsável e prazo, e o acompanhamento entre exercícios que demonstra evolução real. Como primeira e única auditoria especializada no mercado financeiro brasileiro, a MERC conhece o rigor com que a área técnica de supervisão lê esses formulários e sabe que a divulgação bem-feita não é um custo de conformidade — é um ativo de reputação. Uma deficiência bem divulgada, com plano crível, comunica maturidade; uma deficiência escondida atrás de linguagem genérica comunica exatamente o contrário.

Perguntas frequentes

O auditor divulga publicamente as deficiências de controle interno da companhia?

Não diretamente. O auditor comunica as deficiências, especialmente as significativas, à administração e aos responsáveis pela governança, por meio de um relatório detalhado. A decisão sobre o que divulgar publicamente no Formulário de Referência, e como, é da administração, que exerce julgamento sobre a relevância.

Qual a diferença entre deficiência e deficiência significativa?

Uma deficiência de controle existe quando um controle não é capaz de prevenir, detectar ou corrigir distorções em tempo hábil. A deficiência é significativa quando, no julgamento profissional do auditor, é importante o suficiente para merecer a atenção dos responsáveis pela governança — e é essa categoria que aciona a comunicação formal.

Basta declarar que "não há deficiências relevantes" no formulário?

Uma declaração desse tipo precisa ter base. Se o auditor apontou deficiências no relatório detalhado, afirmar que não há nada relevante sem demonstrar o julgamento que levou a essa conclusão cria um descompasso entre a divulgação e o que foi efetivamente avaliado, o que fragiliza a posição da companhia.

O que a orientação anual mudou em relação a esse campo?

A orientação reforça a expectativa de clareza e detalhamento — tanto na descrição das deficiências quanto nos comentários da administração e nas medidas corretivas. A mensagem é contra a divulgação genérica: o campo deve permitir que o leitor entenda a natureza da deficiência e o que está sendo feito a respeito.

Por que a persistência de uma deficiência entre exercícios é um problema de divulgação?

Porque a reapresentação do mesmo texto ano após ano sinaliza que a correção não avançou. Uma divulgação madura mostra a trajetória — deficiência apontada, avaliada, plano montado e status reportado —, demonstrando que a companhia acompanha e resolve, em vez de apenas registrar.

Como uma companhia em estruturação deve tratar esse campo?

Tratando-o como parte do ciclo de governança, não como preenchimento. Isso significa manter um mapeamento das deficiências, um plano de correção com responsável e prazo, e o acompanhamento que conecta um exercício ao seguinte — de modo que a divulgação reflita gestão, e não apenas obrigação.


Este material tem caráter informativo e técnico e não constitui aconselhamento contábil, jurídico ou de auditoria para caso específico. A avaliação de deficiências de controle interno e sua divulgação dependem das circunstâncias de cada companhia e das normas aplicáveis vigentes.