
M&A
M&A no Brasil em 2026 — por que o mercado tem menos deals e mais capital, e o que isso exige da due diligence e do valuation
8 de junho de 2026
O M&A brasileiro sobe em valor e cai em número de operações no 1T26. A virada premia due diligence rigorosa, disciplina de valuation e integração.
Resumo
No primeiro trimestre de 2026, o valor de M&A no Brasil cresceu fortemente enquanto o número de operações recuou de forma relevante — sinal de um mercado mais concentrado e seletivo, não retraído.
Setores como imobiliário, tecnologia (software e serviços) e instituições financeiras lideraram a atividade, refletindo apetite por ativos com fluxo de caixa previsível e teses de consolidação.
A due diligence assistida por inteligência artificial deixou de ser diferencial e virou requisito: contratos, recebíveis e passivos ocultos são varridos em escala, convertendo achados qualitativos em ajustes mensuráveis de enterprise value.
A disciplina de valuation e o planejamento de integração (PMI) são o que separa a operação que cria valor da que destrói — e ambos dependem de demonstrações auditadas e de qualidade de informação confiável.
Característica | Ciclo de volume (anos anteriores) | Ciclo de seletividade (2026) |
|---|---|---|
Lógica do comprador | Crescer via número de aquisições | Crescer via qualidade e sinergia defensável |
Ticket médio | Menor, pulverizado | Maior, concentrado |
Due diligence | Confirmatória, amostral | Investigativa, assistida por IA, exaustiva |
Peso do valuation | Múltiplo de mercado como referência | Múltiplo ajustado por achados de DD e PMI |
Critério de aprovação | Tese estratégica | Tese + prova de valor em diligência |
A virada de mentalidade: por que menos é mais
O cenário macro explica parte do movimento. Com juros ainda restritivos no início do ciclo de afrouxamento e capital com custo de oportunidade elevado, o comprador não tem margem para erro. Cada real alocado precisa de justificativa robusta, e isso favorece operações maiores e bem estruturadas em detrimento de uma carteira pulverizada de apostas. Fundos de private equity, por sua vez, acumulam volume recorde de capital comprometido e ainda não investido, o que pressiona a alocação — mas a pressão por colocar dinheiro para trabalhar convive com exigência crescente de qualidade.
O resultado é um mercado em que a tese estratégica, sozinha, não fecha negócio. A lógica industrial precisa ser demonstrável: a sinergia tem de ter um caminho concreto de captura, a integração precisa de um plano com responsáveis nomeados, e o preço tem de refletir o risco real apurado, não a narrativa do teaser. É um ambiente mais maduro, em que a assessoria técnica de qualidade vira parte do preço — porque é ela que transforma percepção em evidência.
A due diligence assistida por IA virou requisito, não diferencial
A transformação mais visível está na diligência. Ferramentas de inteligência artificial passaram a varrer bases contratuais inteiras em uma fração do tempo do trabalho manual, identificando cláusulas de reajuste automático, garantias cruzadas, mudanças de controle, passivos não contabilizados e concentrações de risco que antes só apareciam por amostragem — quando apareciam. O efeito não é apenas velocidade; é cobertura. Revisar a totalidade de uma base de contratos muda a natureza da diligência, de confirmatória para investigativa.
O ponto técnico mais importante é o que se faz com o achado. Diligências sofisticadas não param em listar contingências; elas convertem cada constatação qualitativa em número. Um conjunto de cláusulas de reajuste não previstas vira um passivo estimado; uma fragilidade de controle interno vira custo de remediação; uma dependência de fornecedor único vira prêmio de risco. Esses valores são então deduzidos do enterprise value, exigidos como capex pós-deal ou endereçados em cláusulas de indenização e earn-out. A diligência deixa de ser um relatório de riscos e passa a ser um instrumento de precificação.
A automação, porém, não substitui o julgamento. A IA acelera a identificação, mas a materialidade, a probabilidade e o tratamento contratual de cada achado continuam dependendo de profissionais experientes. Pior do que não usar a ferramenta é confiar cegamente nela — falsos positivos consomem capital de negociação, e falsos negativos viram surpresa pós-fechamento. O modelo que funciona combina varredura por máquina com curadoria humana sobre o que de fato move o preço.
Valuation com disciplina: o múltiplo é ponto de partida, não de chegada
Em um mercado de seletividade, o valuation por múltiplos de mercado serve como âncora inicial, mas o preço final é uma função dos achados de diligência e da viabilidade de integração. Empresas com demonstrações financeiras auditadas, governança organizada e histórico contábil limpo alcançam avaliações mais altas não por mérito estético, mas porque reduzem a incerteza do comprador — e incerteza, em valuation, é desconto. A qualidade da informação é, ela própria, um componente de valor.
O caminho técnico passa por reconciliar três visões que muitas vezes divergem: o EBITDA reportado, o EBITDA ajustado por itens não recorrentes e o EBITDA "normalizado" que sobrevive à diligência. Cada ajuste precisa ser sustentável e documentado, porque será contestado na mesa de negociação. É aqui que o trabalho de qualidade de resultados (quality of earnings) se encontra com o valuation: não basta projetar fluxos; é preciso defender a base de partida com evidência auditável.
A integração (PMI) decide se o valor projetado se realiza
A literatura e a prática convergem em um ponto incômodo: boa parte das operações de M&A que decepcionam falha não na tese, mas na integração. Sinergias anunciadas no anúncio do negócio evaporam por falta de responsável, por choque de sistemas e por subestimação da complexidade cultural. Em 2026, com tickets maiores e menos margem para erro, o plano de integração deixou de ser um capítulo do pós-fechamento para virar critério de aprovação do próprio negócio.
Tecnologia ajuda também aqui: plataformas de acompanhamento monitoram dezenas de iniciativas de sinergia em paralelo, sinalizando as que travaram por falta de dono antes que o valor se perca. Mas o princípio é de governança, não de software. Uma integração disciplinada nomeia responsáveis, fixa marcos, mede captura de sinergia contra a tese original e trata desvios com a mesma seriedade de uma variação orçamentária relevante. O que se promete na due diligence só vira retorno se for executado na integração.
A perspectiva MERC
Lemos o ciclo de 2026 como um amadurecimento bem-vindo. Um mercado que premia qualidade sobre quantidade é um mercado em que a assessoria técnica importa mais — e em que vendedor preparado e comprador disciplinado fazem negócios melhores. A nossa convicção é que valor em M&A se constrói antes do anúncio, na qualidade da informação, e depois do fechamento, na disciplina de integração. O meio — a negociação — é onde isso aparece, mas raramente é onde se cria.
Vemos a inteligência artificial como uma alavanca poderosa de cobertura e velocidade na diligência, desde que ancorada em julgamento profissional. A combinação que defendemos é simples de enunciar e difícil de executar: varredura exaustiva por ferramenta, curadoria humana sobre materialidade, conversão de achados em ajustes de preço e um plano de integração com donos e métricas. É essa cadeia que transforma uma boa tese em um bom retorno.
Como a MERC pode ajudar
Pela MERC Capital e pela M3 Growth, conduzimos due diligence financeira, contábil e tributária com uso de ferramentas de varredura assistida por IA combinadas à análise técnica de materialidade. Entregamos quality of earnings, normalização de EBITDA, quantificação de contingências e leitura de impacto direto sobre o enterprise value — o trabalho que sustenta o preço na mesa de negociação.
Apoiamos vendedores na preparação pré-venda, organizando demonstrações financeiras auditáveis, governança e documentação que reduzem o desconto de incerteza e elevam o valuation. Para compradores, estruturamos o plano de integração com responsáveis e métricas de captura de sinergia, e acompanhamos o pós-fechamento. A auditoria especializada da MERC Audit & Advisory dá a credibilidade contábil que diferencia a empresa preparada da empresa apenas ofertada.
FAQ
O mercado de M&A brasileiro está desacelerando em 2026?
Não na forma como os números sugerem à primeira vista. O valor transacionado cresceu no primeiro trimestre, enquanto o número de operações caiu. Isso indica concentração e seletividade — operações maiores e mais bem estruturadas —, e não retração da atividade.
Por que a due diligence assistida por IA virou requisito?
Porque ela muda a cobertura da análise. Em vez de revisar uma amostra de contratos, é possível varrer a base inteira, identificando passivos ocultos e cláusulas de risco que antes passavam despercebidos. Em um mercado que pune o erro de precificação, abrir mão dessa cobertura é assumir risco evitável.
A inteligência artificial substitui o trabalho do assessor de M&A?
Não. A IA acelera a identificação de achados, mas a avaliação de materialidade, a probabilidade de cada contingência e o seu tratamento contratual dependem de julgamento profissional. O modelo eficaz combina varredura por máquina com curadoria humana sobre o que realmente afeta o preço.
Como os achados de due diligence afetam o valuation?
Diligências bem feitas convertem constatações qualitativas em números: custo de remediação, passivos estimados e prêmios de risco. Esses valores são deduzidos do enterprise value, exigidos como investimento pós-deal ou endereçados em cláusulas de indenização e earn-out. O valuation final reflete o risco apurado, não apenas o múltiplo de mercado.
Por que a integração pós-fechamento é tão decisiva?
Porque é onde a maior parte do valor projetado se realiza ou se perde. Sinergias anunciadas evaporam quando falta responsável, quando há choque de sistemas ou quando a complexidade cultural é subestimada. Um plano de integração com donos, marcos e métricas de captura é o que conecta a tese da diligência ao retorno efetivo.
