Relatório de sustentabilidade das IFs: o primeiro exercício

Auditoria

Relatório de sustentabilidade das IFs: o primeiro exercício

14 de agosto de 2026

Categoria

O primeiro exercício obrigatório do relatório de sustentabilidade das IFs exige controles, conexão com as DFs e prontidão para asseguração.

Durante anos, a informação de sustentabilidade de uma instituição financeira viveu em outro território: relatório apartado, linguagem de marketing, dados coletados no fim do ciclo e sem a mesma disciplina que cerca a contabilidade. Isso acabou. Com a convergência do arcabouço prudencial aos padrões internacionais de divulgação financeira relacionada à sustentabilidade, o relatório passa a ser preparado sob os mesmos princípios das demonstrações financeiras — mesma data-base, mesmo perímetro, mesma exigência de rastreabilidade — e o primeiro exercício de divulgação obrigatória já chegou para as maiores instituições. A mudança é de natureza, não de forma: a informação de sustentabilidade deixa de ser narrativa e passa a ser afirmação sujeita a verificação. Este artigo não trata de nenhuma instituição específica. Trata do que o novo relatório exige de controles, de conexão com os números contábeis e de prontidão para asseguração, e de como a MERC apoia instituições reguladas a produzir uma informação que resiste ao exame.

É um tema que se conecta diretamente ao trabalho de asseguração razoável e limitada.

Resumo

A informação de sustentabilidade entra no regime da contabilidade.O relatório passa a ser elaborado à luz de pronunciamentos convergentes aos padrões internacionais de divulgação financeira relacionada à sustentabilidade, com foco na materialidade financeira — riscos e oportunidades climáticos e de sustentabilidade que afetam fluxo de caixa, acesso a capital e custo de captação. Não é mais um relatório de reputação: é um relatório de risco.

A divulgação é faseada e já começou.As instituições de maior porte e complexidade abrem o ciclo já no exercício corrente; as demais entram em janela posterior. Quem está na primeira onda não tem mais o conforto de tratar o tema como projeto futuro — o primeiro relatório sob a nova régua precisa estar de pé.

O relatório tem de conversar com as demonstrações financeiras.Mesma data-base, mesmo perímetro de consolidação e consistência entre o que a instituição diz sobre risco climático e o que os números contábeis refletem em provisões, perdas esperadas e valor de ativos. Divergência entre os dois documentos é o primeiro alvo de quem examina.

A asseguração é o horizonte, e ela cobra evidência.Ainda que o nível exigido evolua por etapas, o mercado — investidores, contrapartes e supervisores — já lê a informação com olhar de verificação. Produzir dado sem controle, sem trilha e sem fonte auditável é aceitar um risco que aparece no primeiro pedido de evidência.

Dimensão

Regime antigo (relatório voluntário)

Novo regime (divulgação sob a norma)

Natureza da informação

Narrativa de reputação e compromissos

Afirmação de risco e oportunidade com materialidade financeira

Data-base e perímetro

Livres, muitas vezes descolados do balanço

Mesma data-base e mesmo perímetro das demonstrações financeiras

Fonte dos dados

Planilhas e coletas pontuais no fim do ciclo

Sistemas com trilha, controles e retenção de evidência

Expectativa de verificação

Nenhuma ou selo genérico

Asseguração faseada; leitura de mercado já é de verificação

Responsabilidade

Área de sustentabilidade ou marketing

Administração, com governança equivalente à das demonstrações

Por que a materialidade financeira muda tudo

O eixo do novo relatório é a materialidade financeira: o que interessa divulgar é o conjunto de riscos e oportunidades de sustentabilidade — com destaque para os climáticos — capazes de afetar a posição financeira, o desempenho e os fluxos de caixa da instituição no curto, médio e longo prazo. Não é uma prestação de contas sobre o impacto da instituição no mundo; é uma prestação de contas sobre como o mundo, em transição, afeta a instituição. Essa inversão de perspectiva é o que aproxima o relatório da contabilidade e o afasta da peça de reputação.

Para uma instituição financeira, o efeito é direto. Risco físico e risco de transição atravessam a carteira de crédito, a carteira de investimentos, as garantias recebidas e a própria captação. Uma exposição concentrada em setores sensíveis à descarbonização não é apenas um tema ambiental: é um vetor de perda esperada, de reprecificação de colateral e de risco de concentração. Quando o relatório afirma que a instituição monitora e gerencia esse risco, ele está fazendo uma afirmação que precisa ser sustentada por dado, por metodologia e por governança — exatamente como uma nota explicativa.

É por isso que o relatório deixa de ser um anexo simpático e passa a ser um documento de risco. Ele descreve governança do tema, estratégia diante dos cenários, processos de gestão de risco e métricas e metas. Cada um desses blocos gera afirmações verificáveis, e cada afirmação verificável é, na prática, um controle que precisa existir antes da divulgação, não depois dela.

A conexão com as demonstrações é o primeiro teste

O ponto que mais separa a instituição preparada da despreparada é a consistência entre o relatório de sustentabilidade e as demonstrações financeiras. A norma amarra os dois: mesma data-base, mesmo perímetro de consolidação e coerência de premissas. Se o relatório descreve um cenário de transição que pressiona determinados setores, as demonstrações precisam refletir esse mesmo mundo nas perdas esperadas, nas provisões, nos testes de recuperabilidade de ativos e nas divulgações de risco. Dois documentos que contam histórias diferentes sobre o mesmo risco são um convite ao questionamento.

Essa conexão tem consequência prática imediata. As premissas climáticas usadas na estimativa de perda de crédito esperada, na avaliação de valor recuperável e no julgamento sobre continuidade não podem ser uma versão para o relatório e outra para o balanço. A informação de sustentabilidade e a informação contábil passam a beber da mesma fonte de dados e do mesmo conjunto de cenários, sob pena de a instituição divulgar duas verdades incompatíveis no mesmo pacote de fim de exercício.

Bloco do relatório

Afirmação típica

Onde a evidência precisa existir

Governança

O tema é supervisionado pela alta administração

Atas, alçadas, política aprovada e trilha de decisão

Estratégia

A instituição avaliou cenários e seus efeitos financeiros

Metodologia de cenários, premissas documentadas e ligação ao balanço

Gestão de risco

Risco climático integra a gestão de risco da instituição

Fluxo de identificação, mensuração e monitoramento com evidência

Métricas e metas

Emissões, exposições e metas divulgadas

Fonte primária do dado, base de cálculo e conciliação com sistemas

O dado não-financeiro é o ponto frágil

Há uma diferença incômoda entre a informação contábil e boa parte da informação de sustentabilidade: a segunda muitas vezes nasce fora dos sistemas transacionais. Emissões, consumo, exposição por setor, dados de cadeia — tudo isso costuma vir de coletas manuais, estimativas e fontes externas, sem a arquitetura de controle que cerca um lançamento contábil. Quando essa informação passa a ser divulgada sob a norma, essa fragilidade vira exposição. Um número de emissões que ninguém consegue reconstruir, uma meta cuja base de cálculo se perdeu, uma exposição setorial que não bate com a carteira: são exatamente os pontos que um trabalho de verificação ataca primeiro.

O caminho é tratar o dado de sustentabilidade com a mesma disciplina do dado contábil. Isso significa definir a fonte primária de cada métrica, documentar a metodologia de cálculo, estabelecer controles sobre a coleta e a consolidação, e reter a evidência que sustenta cada número por prazo compatível. Também significa reconhecer as estimativas como estimativas — com premissas explícitas e faixa de incerteza — em vez de apresentá-las como fatos exatos. A honestidade sobre o grau de precisão de um dado é, ela própria, um sinal de maturidade que o examinador valoriza.

A asseguração é o horizonte — e ela começa antes do relatório

Ainda que a exigência formal de asseguração evolua por etapas, a instituição que espera o relatório ficar pronto para só então pensar em verificação inverte a ordem correta. A asseguração de informação de sustentabilidade — conduzida sob normas de trabalhos de asseguração e, no recorte histórico, sob normas específicas para esse tipo de informação — não credencia o que não foi construído com controle. O trabalho de asseguração razoável ou limitada testa a existência da evidência, a consistência da metodologia e a conexão com os números; se nada disso foi organizado durante o ano, o resultado é ressalva, abstenção ou retrabalho de última hora.

Por isso a preparação para asseguração não é uma etapa posterior à divulgação: é o desenho do processo que produz a divulgação. Quem constrói o relatório já pensando em quem depois vai examiná-lo estrutura fonte de dado, trilha e governança desde o início, e chega ao fim do exercício com um documento que sustenta o exame. Quem constrói o relatório como peça de comunicação e só depois procura quem o assine descobre, tarde, que asseguração não é carimbo — é reconstrução de evidência que, muitas vezes, já não existe.

Como a MERC pode ajudar

Frente

O que fazemos

Entregável

1. Diagnóstico de prontidão

Avaliação do estágio atual do relatório frente às exigências e ao cronograma de fases

Mapa de lacunas por bloco e plano de fechamento

2. Conexão com as demonstrações

Alinhamento de data-base, perímetro e premissas entre relatório e balanço

Matriz de consistência e pontos de divergência a corrigir

3. Controles sobre o dado

Desenho de fonte primária, metodologia, controles de coleta e retenção de evidência

Catálogo de métricas com base de cálculo e trilha

4. Preparação para asseguração

Organização do processo para suportar trabalho de asseguração limitada ou razoável

Roteiro de evidências e simulação de exame

5. Asseguração independente

Trabalho de asseguração sobre a informação divulgada, com nível de confiança definido

Relatório de asseguração e trilha de evidência

Sobre esse ciclo, a especialização da MERC no sistema financeiro agrega a leitura do relatório de sustentabilidade pela ótica de quem depois vai examiná-lo — e de quem já examina as demonstrações financeiras da instituição. Quando o relatório nasce amarrado à mesma fonte de dados do balanço, com controle sobre cada métrica e trilha de evidência preservada, a instituição não produz apenas uma peça de divulgação: produz uma informação que resiste ao questionamento do supervisor, do investidor e do trabalho de asseguração. É a diferença entre relatar sustentabilidade e demonstrá-la.

Um caso ilustrativo (anonimizado)

Considere uma instituição que, por anos, publicou um relatório de sustentabilidade robusto em narrativa e frágil em dado. Com o primeiro exercício obrigatório à porta, a equipe assume que basta reformatar o relatório existente sob a nova estrutura. No diagnóstico, o problema real aparece: as métricas de emissões vinham de uma planilha sem fonte reconstruível, o cenário climático descrito no relatório não conversava com as premissas de perda esperada usadas no balanço, e a governança do tema não tinha trilha de decisão. O documento parecia pronto; a evidência por trás dele, não.

O trabalho é reorganizado em frentes. Primeiro a conexão com as demonstrações, para que relatório e balanço contem a mesma história de risco; depois os controles sobre cada métrica, com fonte primária e base de cálculo documentadas; por fim a organização da evidência para suportar um exame independente. Nenhuma etapa foi trivial, mas ao final a instituição tinha um relatório sustentado por dado auditável, coerente com o balanço e pronto para asseguração. O caso é ilustrativo e não se refere a nenhuma instituição específica. O padrão, porém, é frequente: o risco quase nunca está na qualidade do texto, e sim na ausência de evidência por trás dos números.

Perguntas frequentes

O que muda no relatório de sustentabilidade das instituições financeiras?

A informação passa a ser elaborada sob pronunciamentos convergentes aos padrões internacionais de divulgação financeira relacionada à sustentabilidade, com foco na materialidade financeira. Deixa de ser uma peça de reputação e passa a ser um documento de risco, preparado com a mesma disciplina das demonstrações financeiras e sujeito a verificação.

Quem precisa divulgar primeiro?

A divulgação é faseada por porte e complexidade. As instituições de maior porte abrem o ciclo no exercício corrente, enquanto as demais entram em janela posterior. Quem está na primeira onda precisa ter o relatório sob a nova régua de pé agora, não como projeto futuro.

Por que o relatório precisa conversar com o balanço?

Porque a norma amarra os dois à mesma data-base, ao mesmo perímetro e a premissas coerentes. Se o relatório descreve um risco climático que pressiona certos setores, as demonstrações precisam refletir esse mesmo mundo nas perdas esperadas, nas provisões e nos testes de recuperabilidade. Divergência entre os dois documentos é o primeiro ponto que um examinador ataca.

Qual é o maior risco de execução?

O dado não-financeiro. Emissões, exposições e metas costumam nascer fora dos sistemas transacionais, em coletas manuais e estimativas sem controle. Quando essa informação passa a ser divulgada sob a norma, a ausência de fonte reconstruível e de trilha vira exposição direta no primeiro pedido de evidência.

Quando pensar em asseguração?

Antes de o relatório ficar pronto. A asseguração testa a existência da evidência, a consistência da metodologia e a conexão com os números; ela não credencia o que não foi construído com controle. Preparar-se para asseguração é desenhar, desde o início do exercício, o processo que produz a divulgação — não procurar quem assine no fim.

Para aprofundar, conheça o serviço de auditoria independente da MERC.

Este artigo tem caráter informativo e técnico e não constitui aconselhamento contábil, regulatório ou de investimento. A elaboração e a asseguração do relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade dependem dos fatos específicos de cada instituição e do texto integral das normas vigentes.

Guia técnico: Relatório de sustentabilidade das IFs

O que o primeiro exercício obrigatório cobra de controles, conexão com as demonstrações e prontidão para asseguração.