Programa Piloto DLT da CVM: o que muda para a tokenização

Tecnologia

Programa Piloto DLT da CVM: o que muda para a tokenização

30 de outubro de 2026

A CVM criou um piloto para testar em redes DLT todo o ciclo do valor mobiliário, da emissão à liquidação. Veja o que o auditor passa a examinar.

A tokenização de valores mobiliários saiu do campo do discurso e entrou no campo do teste controlado. A Comissão de Valores Mobiliários instituiu um programa piloto para simular, em redes de registro distribuído, todas as etapas da vida de um valor mobiliário, da emissão à liquidação, passando pela custódia. É a primeira entrega concreta do grupo de trabalho de tokenização criado pela autarquia, e marca uma mudança de ritmo: em vez de discutir a tokenização em abstrato, o regulador abre um ambiente para observar como ela funciona na prática, com um nó de supervisão lendo as operações em tempo real. A auditoria independente de quem opera nesse mercado passa a incluir, cedo ou tarde, a leitura dessa infraestrutura.

Para securitizadoras, fundos, escrituradores, custodiantes e demais prestadores que orbitam o mercado de capitais, o piloto não é uma curiosidade de laboratório. É o ensaio da infraestrutura que pode se tornar regra, e o momento em que se define quais controles, quais evidências e qual trilha de auditoria uma operação tokenizada precisa ter para ser confiável. Quem entende cedo o que será exigido chega à regra definitiva com a casa arrumada, e não correndo atrás do prejuízo.

Resumo

  • A CVM criou um programa piloto para testar, em redes de registro distribuído, todo o ciclo de um valor mobiliário: emissão, escrituração, negociação, custódia, depósito centralizado e liquidação.

  • O ambiente é isolado e sem risco real: não há investidores, ativos em circulação nem movimentação financeira, apenas tokens de teste e dados fictícios ou anonimizados.

  • Dentro das redes admitidas, a autarquia pode suspender temporariamente regras sobre registro de ofertas, escrituração, custódia, depósito e intermediação, para observar arranjos novos sob supervisão.

  • A participação não equivale a autorização nem gera direito a tratamento regulatório futuro, mas produz evidência e aprendizado que antecipam o que a regra definitiva deve exigir em controles e asseguração.

Elemento do piloto

Como funciona

Escopo dos ativos

Ações, debêntures, certificados de recebíveis, cotas de fundos e outros contratos de investimento coletivo

Etapas simuladas

Da emissão à liquidação, incluindo escrituração, custódia, depósito centralizado e negociação

Ambiente

Isolado, com tokens de teste e dados fictícios ou anonimizados, sem movimentação financeira real

Redes

Privadas ou públicas permissionadas, geridas por entidades representativas e autorreguladoras

Supervisão

Nó de acesso da autarquia com leitura em tempo real de operações, contratos inteligentes e metadados

O que o piloto realmente propõe

A norma permite que, dentro das redes admitidas, o regulador suspenda temporariamente um conjunto de regras que hoje organizam o mercado de capitais: registro de ofertas, escrituração, custódia, depósito centralizado, funcionamento de mercados organizados e intermediação. A suspensão não é um afrouxamento permanente, e sim a condição para observar arranjos que a estrutura atual não comporta. Um deles é expressamente previsto: a possibilidade de uma única entidade executar várias etapas no mesmo ambiente, com ou sem depositário central e com ou sem intermediário. É a tokenização testando a hipótese de que o registro distribuído reorganiza papéis que hoje são separados por desenho regulatório.

O ambiente é deliberadamente sem consequência financeira. Não há investidor real, não há ativo em circulação e não há dinheiro se movimentando. Circulam tokens de teste e dados fictícios ou anonimizados. Isso é importante por dois motivos. O primeiro é que o piloto isola o risco: eventuais falhas de um contrato inteligente ou de um fluxo de liquidação não atingem poupança de ninguém. O segundo é que a ausência de valor real não dispensa rigor de evidência, porque o que está em teste são exatamente os controles, a rastreabilidade e a integridade que, no mundo real, separam uma infraestrutura confiável de uma promessa.

A gestão das redes cabe a entidades representativas e autorreguladoras já integradas ao grupo de trabalho, isoladamente ou em consórcio, e os participantes incluem escrituradores, custodiantes, depositários, administradores de mercado, intermediários e plataformas de captação. Emissores registrados, inclusive securitizadoras, podem entrar a critério do comitê gestor. Cada participante arca com os próprios custos, envia relatórios periódicos e contribui para um relatório conclusivo com sugestões de mudança normativa ou legal. A autarquia deixou claro que participar não é autorização, não gera expectativa de tratamento futuro e não pode ser usado como selo. É um laboratório, não um atalho.

A pergunta que o piloto deixa para o auditor

Toda a discussão sobre tokenização termina em uma pergunta prática: como se prova que o registro distribuído diz a verdade? A tecnologia promete imutabilidade e trilha completa, mas imutabilidade não é sinônimo de correção. Um registro pode ser imutável e, ainda assim, refletir uma emissão feita com lógica errada, uma titularidade mal atribuída ou um passivo incompleto. É nessa fronteira que a auditoria e a asseguração encontram o seu papel, e é por isso que o piloto importa para quem audita e para quem é auditado.

Em um ambiente tokenizado, a opinião ou a conclusão do profissional independente se apoia em frentes concretas. A existência e a titularidade dos ativos tokenizados precisam ser demonstráveis, o que envolve prova de controle das chaves criptográficas associadas. A completude do universo precisa ser testada, porque o risco não é só o token que existe a mais, mas o passivo ou o detentor que não aparece. A lógica dos contratos inteligentes precisa ser examinada quanto à aderência ao contrato jurídico que eles supostamente executam, já que o código é a regra que de fato roda. E a conciliação entre o que está registrado na rede e o que está na contabilidade continua sendo o ponto em que a inovação encontra a demonstração financeira. O nó de supervisão em tempo real do regulador é um controle valioso, mas é um controle do supervisor, e não substitui a asseguração independente que o mercado e as contrapartes vão exigir.

Afirmação em ambiente DLT

Risco típico

O que o trabalho independente examina

Existência e titularidade

Token sem lastro ou titularidade mal atribuída

Prova de controle das chaves e vínculo entre token e direito subjacente

Completude

Detentor ou passivo que não aparece no registro

Teste do universo de tokens e dos detentores contra a emissão autorizada

Integridade do contrato inteligente

Código que não corresponde ao contrato jurídico

Avaliação da lógica codificada e dos controles de alteração do código

Conciliação com a contabilidade

Divergência entre registro na rede e demonstrações

Reconciliação entre o estado da rede e os saldos contábeis

Ambiente de tecnologia

Chaves, acessos e nós mal governados

Controles gerais de tecnologia, custódia de chaves e governança da rede

Implicações práticas para quem participa, e para quem observa

Para o emissor registrado, a securitizadora e o fundo que avaliam entrar no piloto, a decisão tem um lado técnico e um lado estratégico. No lado técnico, participar exige mapear como cada etapa hoje separada, da escrituração à liquidação, se comporta quando concentrada em uma rede, e documentar os controles que sustentam cada afirmação. No lado estratégico, o aprendizado gerado agora é insumo direto da regra definitiva, porque a autarquia sinalizou que o desenho futuro deve seguir a lógica de supervisão desde a concepção. Em outras palavras, quem ajuda a desenhar o teste tende a estar mais preparado para a norma que vier dele.

Para quem apenas observa, a leitura é igualmente útil. Uma operação tokenizada que um dia pretenda captar recursos do público vai precisar demonstrar, a investidores e contrapartes, as mesmas coisas que o piloto está testando: que o ativo existe, que a titularidade é legítima, que o contrato inteligente faz o que diz e que a contabilidade conversa com a rede. Construir essa capacidade de evidência não é tarefa para a véspera da oferta. É trabalho de readiness, que combina organização de controles, trilha de auditoria legível e, quando for o caso, um relatório de asseguração sobre os controles da infraestrutura. O piloto é a prévia pública de uma régua que, mais cedo ou mais tarde, vai alcançar o mercado.

Caso anonimizado

Uma gestora de recebíveis estruturou internamente uma prova de conceito para registrar cotas em uma rede permissionada, convencida de que a imutabilidade do registro resolveria por si só a questão da confiança. Ao preparar a documentação para uma eventual participação em ambiente supervisionado, percebeu que não conseguia demonstrar, de forma independente, três coisas: que o conjunto de detentores registrados era completo, que o contrato inteligente de distribuição de resultados seguia exatamente a cascata prevista no regulamento e que o estado da rede conciliava com a contabilidade do patrimônio. A falha não estava na tecnologia, e sim na ausência de controles e de trilha legível em torno dela. Com um trabalho de avaliação de controles e de reconciliação, a estrutura passou a ter evidência verificável de cada afirmação, e o que era uma aposta na imutabilidade virou uma operação auditável.

Como a MERC pode ajudar

A MERC é uma auditoria especializada no mercado financeiro brasileiro e atua na interface entre a inovação tecnológica e a demonstração financeira confiável. Para emissores, securitizadoras, fundos e prestadores que avaliam a tokenização, a atuação combina a auditoria independente das demonstrações com a asseguração de controles sobre ambientes de registro distribuído: avaliação da existência e da titularidade de ativos tokenizados, teste de completude do universo de tokens, exame da aderência dos contratos inteligentes ao contrato jurídico, reconciliação entre a rede e a contabilidade e avaliação dos controles gerais de tecnologia e de custódia de chaves. Para quem pondera entrar no piloto ou preparar uma operação tokenizada, esse trabalho transforma a promessa da tecnologia em evidência verificável. Para tratar do seu caso, fale com a equipe pelo contato.

Perguntas frequentes

O piloto autoriza uma operação tokenizada?

Não. Participar do programa não equivale a autorização nem gera direito a tratamento regulatório futuro. O ambiente é de teste, isolado e sem efeito sobre o mercado real, e a própria norma veda o uso da participação como selo de aprovação.

Quais ativos entram no escopo do teste?

Ações, debêntures, certificados de recebíveis, cotas de fundos e outros contratos de investimento coletivo, com simulação de todas as etapas da vida do ativo, da emissão à liquidação, incluindo custódia e depósito centralizado.

Se o registro é imutável, ainda é preciso auditar?

Sim. Imutabilidade garante que o registro não foi alterado, mas não garante que ele esteja correto. Uma emissão com lógica errada, uma titularidade mal atribuída ou um universo de detentores incompleto podem ficar imutavelmente registrados. A auditoria e a asseguração examinam exatamente a correção, a completude e a conciliação com a contabilidade.

O nó de supervisão da CVM substitui a auditoria independente?

Não. O nó de acesso dá ao regulador leitura em tempo real das operações, dos contratos inteligentes e dos metadados, o que é um controle de supervisão. A asseguração independente responde a uma necessidade diferente, a de dar a investidores, contrapartes e ao próprio mercado uma conclusão técnica sobre a confiabilidade da informação.

Vale a pena se preparar antes da regra definitiva?

Vale. O desenho futuro deve seguir a lógica de supervisão desde a concepção, o que significa que os controles e a trilha de auditoria exigidos no teste tendem a virar requisito. Construir essa capacidade de evidência com antecedência evita retrabalho e reduz o risco na hora de uma oferta ou de um registro.