
Tecnologia
Pix, Drex, Open Finance e tokenização — o planejamento estratégico do BCB para 2026-2029 e as novas fronteiras de compliance e auditoria
11 de junho de 2026
BCB projeta integrar Pix, Drex, Open Finance e tokenização até 2029. O que a agenda significa para compliance, controles e auditoria de instituições.
Resumo
O planejamento estratégico do BCB para 2026-2029 projeta a integração entre Pix, Open Finance, Drex e tokenização de ativos reais, com a meta de um ecossistema financeiro programável, eficiente e seguro até 2029.
O Drex passa por reestruturação: a tecnologia blockchain testada nas fases-piloto foi considerada inadequada às necessidades do projeto, e a nova base tecnológica está em definição — o que reposiciona o cronograma, mas não a direção estratégica.
No Open Finance, os próximos serviços anunciados são a portabilidade de salário e de investimentos; o piloto da jornada otimizada (consentimento de pagamento + dados em uma só ação) deve ser concluído em junho.
Para instituições participantes, a agenda implica novas camadas de compliance: governança de consentimento e de dados, controles sobre APIs e terceiros tecnológicos, trilhas de auditoria de transações programáveis e asseguração independente de infraestruturas críticas.
A supervisão do BCB tem elevado consistentemente o padrão de exigência sobre tecnologia — e a auditoria independente é progressivamente convocada a opinar sobre ambientes que misturam contabilidade, dados e infraestrutura de mercado.
Pilar | O que é hoje | Para onde vai até 2029 | Implicação de controle e auditoria |
|---|---|---|---|
Pix | Pagamento instantâneo consolidado | Camada transacional integrada a dados e ativos tokenizados | Gestão de risco operacional e de fraude; disponibilidade e segurança cibernética |
Open Finance | Compartilhamento de dados e iniciação de pagamento | Portabilidade de salário e investimentos; jornada otimizada de consentimento | Governança de consentimento; qualidade e rastreabilidade de dados; responsabilidade entre participantes |
Drex | Projeto em reestruturação tecnológica | Base de liquidação atômica de uma economia tokenizada | Controles sobre custódia digital, liquidação e contratos programáveis; contabilização de novos instrumentos |
Tokenização (RWA) | Pilotos e emissões pontuais | Ativos reais negociados e liquidados em infraestrutura integrada | Mensuração e existência de ativos tokenizados; asseguração de registros e lastros |
O que o BCB está dizendo — e por que isso importa agora
Planejamentos estratégicos de reguladores costumam ser lidos como peças institucionais. No caso do BCB, a história recente recomenda o contrário: a agenda 2026-2029 descreve com bastante precisão onde estarão as exigências regulatórias dos próximos ciclos. Foi assim com a agenda que antecedeu o Pix, com a que estruturou o Open Finance e com o pacote prudencial e de integridade que hoje pressiona instituições de pagamento e fintechs.
A leitura técnica do novo ciclo aponta três movimentos.
O primeiro é a consolidação da tese das infraestruturas públicas digitais. O BCB enxerga Pix, Open Finance e, futuramente, Drex e tokenização como camadas complementares de uma mesma arquitetura: o Pix resolve a transação, o Open Finance democratiza a informação, e o Drex com a tokenização levam a eficiência transacional à camada dos ativos — com liquidação atômica (entrega contra pagamento simultânea e indivisível) e programabilidade (regras de negócio embutidas na própria liquidação).
O segundo é o pragmatismo tecnológico. A reestruturação do Drex — com o reconhecimento público de que a base de blockchain testada nos pilotos não atendia às necessidades de escala, privacidade e controle do projeto — mostra um regulador disposto a trocar a ferramenta sem abandonar o objetivo. Para o mercado, a lição é direta: apostas de arquitetura tecnológica feitas hoje precisam de flexibilidade contratual e técnica para acompanhar redefinições do regulador.
O terceiro é a expansão contínua do Open Finance. A portabilidade de salário e de investimentos transforma o ecossistema de um canal de dados em um canal de movimentação de relacionamentos — com efeitos concorrenciais e de risco operacional muito maiores. E a jornada otimizada, ao unificar consentimentos, reduz fricção para o cliente ao custo de elevar a criticidade de cada autorização registrada.
Implicações práticas: a conta de compliance chega antes da tecnologia
Para quem opera uma instituição financeira, de pagamento ou uma fintech regulada, a tentação é tratar a agenda 2026-2029 como assunto de tecnologia. A experiência dos ciclos anteriores sugere outra ordem de prioridade: as obrigações de governança e controles chegam antes — e são auditáveis desde já.
Na governança de consentimento e dados, a expansão do Open Finance para portabilidade de salário e investimentos exige que cada participante demonstre a integridade do ciclo de vida do consentimento: captura, escopo, revogação e descarte. Falhas nesse ciclo deixam de ser incidentes de TI e viram descumprimento regulatório com responsabilização da administração.
Nos controles sobre APIs e terceiros, a integração crescente entre infraestruturas multiplica os pontos de contato com provedores de tecnologia, iniciadores e parceiros de distribuição. A responsabilidade regulatória, porém, não se terceiriza: contratos, monitoramento de níveis de serviço, testes de segurança e planos de contingência precisam estar documentados e operantes — e são objeto típico de revisão em inspeções do regulador e em trabalhos de asseguração.
Nas trilhas de auditoria, a programabilidade financeira — pagamentos condicionados, liquidação atômica, contratos com regras embutidas — desafia o modelo tradicional de evidência. Quando a regra de negócio está no código da liquidação, auditar a transação exige auditar a lógica que a executou. Instituições que pretendem operar nesse ambiente precisarão de versionamento, homologação e rastreabilidade de regras programáveis com rigor equivalente ao de um controle interno contábil.
Na asseguração independente, a direção regulatória é clara: o BCB tem ampliado progressivamente as hipóteses em que exige avaliação ou auditoria independente de ambientes tecnológicos críticos — movimento visível na regulamentação recente de prestadores de serviços de ativos virtuais e nos requisitos de segurança do próprio Pix. É razoável esperar que a integração das infraestruturas traga novas obrigações de asseguração para participantes relevantes.
A perspectiva MERC
A agenda 2026-2029 confirma uma tendência que temos observado na prática de auditoria do mercado financeiro: a fronteira entre contabilidade, dados e infraestrutura tecnológica está desaparecendo. A provisão de crédito depende de modelos; a receita depende de APIs; o ativo, em breve, poderá ser um token cuja existência e titularidade dependem de registros em infraestrutura integrada. Auditar esse mundo exige equipes que entendam simultaneamente a norma contábil, a regulação do BCB e a arquitetura tecnológica — e exige das instituições a disciplina de construir controles auditáveis desde o desenho, não como remendo posterior. Quem chegar a 2029 com governança de dados madura, terceiros sob controle e trilhas de auditoria confiáveis vai capturar as oportunidades do ecossistema integrado; quem chegar sem isso vai gastar a janela estratégica respondendo a apontamentos de supervisão.
Como a MERC pode ajudar
A MERC é a primeira auditoria especializada no mercado financeiro brasileiro e acompanha de perto a agenda regulatória e tecnológica do BCB. A MERC Audit & Advisory realiza auditoria independente de instituições participantes do Open Finance e do arranjo Pix, diagnósticos de prontidão de controles para novas obrigações regulatórias, revisão de governança de dados e consentimento e trabalhos de asseguração sobre ambientes tecnológicos críticos. Para fintechs e instituições de pagamento em expansão, apoiamos a estruturação de controles internos auditáveis desde o desenho do produto. Conheça também nosso conteúdo sobre auditoria especializada no mercado financeiro, o checklist de auditoria para fintechs reguladas e o comparativo entre asseguração razoável e limitada.
Perguntas frequentes
O que é a integração entre Pix, Drex, Open Finance e tokenização projetada pelo BCB?
É a visão estratégica do regulador para 2026-2029: combinar o compartilhamento de dados do Open Finance, a camada transacional do Pix e a liquidação programável do Drex com ativos tokenizados, criando um ecossistema em que informação, pagamento e ativo circulam de forma integrada, com liquidação atômica e regras de negócio embutidas.
O Drex foi abandonado com a reestruturação tecnológica?
Não. O que mudou foi a base tecnológica: a infraestrutura de blockchain testada nas fases-piloto foi considerada inadequada às necessidades do projeto, e uma nova base está em definição. A direção estratégica — moeda digital de banco central como camada de liquidação de uma economia tokenizada — permanece no centro do planejamento do BCB.
O que muda para as instituições com a portabilidade de salário e de investimentos no Open Finance?
O ecossistema deixa de apenas compartilhar dados e passa a movimentar relacionamentos inteiros entre instituições. Isso eleva o risco operacional e concorrencial de cada participante e exige governança robusta de consentimento, qualidade de dados e processos de portabilidade com trilhas completas de auditoria.
Instituições participantes dessas infraestruturas precisam de asseguração independente?
A regulamentação varia por arranjo e porte, mas a tendência é de ampliação das exigências — como já ocorre nos requisitos de segurança do Pix e na regulamentação de prestadores de serviços de ativos virtuais, que prevê auditoria de ambientes tecnológicos. Mesmo onde não há obrigação formal, a asseguração independente tem sido demandada por conselhos, investidores e parceiros comerciais.
Como uma fintech deve se preparar para a agenda 2026-2029?
Construindo controles auditáveis desde o desenho: inventário de dados e consentimentos, gestão formal de terceiros tecnológicos, versionamento e homologação de regras programáveis, plano de continuidade e testes periódicos de segurança. O custo de estruturar isso agora é uma fração do custo de remediar apontamentos de supervisão depois.
